Rastreio e prevenção. Duas palavras que são a chave para que, em Portugal, a taxa de mortalidade de quarenta por cento, nos mil novos casos de cancro do colo do útero anuais, possa baixar. No entanto, esse objectivo tem falhado, uma vez que há ainda sessenta por cento das mulheres que ficam fora dos sistema de rastreio.
"Sabemos que o rastreio, actualmente, só funciona bem na região Centro. No Norte e no Sul as condições são precárias, não respondem às necessidades. Nestas regiões estão a iniciar-se experiências-piloto, que provavelmente vão dar bons resultados", disse ao CM Vítor Veloso, presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC).
A realidade portuguesa nesta área "é dramática". O País tem uma incidência e mortalidade que é o dobro do que acontece em Espanha. "Não estamos a tomar as medidas certas até ao momento", salientou Vítor Veloso.
Grande parte do insucesso do combate ao flagelo reside também nalguns mitos que foram ganhando peso. "Temos tentado desdramatizar este tipo de cancro de forma a que a mulher o deixe de ver como uma marca de mau comportamento sexual", explicou o presidente da LPCC. Tal não corresponde à verdade e o Vírus do Papiloma Humano, responsável por este cancro, tem contacto com quase a totalidade dos homens e mulheres.
Todavia, dentro das diversas tipologias do vírus, a maior parte é benigna. As de tipo "16" e "18" são as estirpes mais graves e responsáveis por cerca de 90 por cento das situações que degeneram em neoplasias.
"Já entrou no plano nacional de vacinação. Não foi aquilo que gostávamos que fosse, com a generalização. Sabemos que o peso económico financeiro é muito grande, mas é precisamente por isso que o Estado tem de ter algum cuidado. É um investimento, não um custo", salientou Vítor Veloso. Para o responsável da LPCC, o gasto na prevenção terá retorno. "Gastamos na prevenção para poupar em tratamentos, até porque isto é um investimento". Para o especialista, devia haver mais ajudas para as jovens. "As raparigas que estão fora da faixa abrangida e que têm dificuldades económicas deviam ter comparticipação", exemplificou.
Com um rastreio bem feito, o responsável acredita que em cinco ou dez anos, os resultados podem ser espectaculares. "No caso do cancro da mama, em cinco anos, reduzimos 20 por cento da mortalidade".
VIDA SEXUAL PASSA POR FASE DE ADAPTAÇÃO
Pelas alterações que a notícia provoca tanto em termos físicos e psicológicos, a vida sexual dos casais em que a mulher tem cancro do colo do útero passa por uma fase de adaptação. Pelo menos em parte dos casos, pois não falta relatos de mulheres que os maridos "consideram que deixam de servir". Para Vítor Veloso é evidente que a doença afecta o comportamento sexual do casal. "Há sempre uma certa revolta da parte dela e do homem. Há um medo de ter relações sexuais e isso afecta muito", constata. Em relação à família, o cancro do colo do útero também promove alterações, pois a mulher pode ter de retirar os ovários, o que a impedirá de ter filhos. n
VÍRUS DO PAPILOMA HUMANO (HPV)
É um vírus que infecta as áreas genitais femininas e masculinas e qualquer região do corpo, bastando uma lesão na pele ou mucosa. Está associado ao cancro do colo do útero, verrugas e outras doenças genitais e do ânus.
LOCALIZAÇÃO
Cólo do útero, extremidade do útero que liga o corpo do útero à vagina
ATACA
Células do corpo do útero que se desenvolvem anomalias e começam a crescer de forma descontrolada
COMO É DETECTADO
Através de rastreio cujo exame mais comum é o Papanicolaou
COMO SE TRANSMITE
Através do contacto sexual. Estima-se que aproximadamente 70% de pessoas sexualmente activas serão expostas ao Papilomavírus Humano num determinado momento das suas vidas, frequentemente na adolescência ou na fase de jovens adultos.
EXAMES
COLPOSCOPIA
Utilização de um colposcópio para analisar o colo do útero. O colposcópio associa uma luz brilhante a uma lente de aumento para facilitar a visualização do tecido. Não é inserido na vagina. Em geral, a colposcopia realiza-se num consultório médico ou clínica.
BIÓPSIA
O médico recolhe tecido para proceder à pesquisa de células pré-cancerígenas ou cancerígenas. A maioria das biópsias são feitas no consultório médico mediante anestesia local. Posteriormente, o tecido será examinado por microscopia por um patologista.
MÉTODOS DE EXAME
UTENSÍLIO
O espéculo vaginal, como a escova cervical, são usados para retirar a amostra no papanicolaou.
LÍQUIDO
A citologia líquida, apesar de menos vulgar, é mais eficaz, pois há menos amostras rejeitadas por má colheita.
LÂMINA
A citologia em lâmina, mais convencional, está também mais sujeita a contaminação das amostras.
SAIBA MAIS
O QUE É
Ao contrário de muitos outros cancros, a origem do cancro do colo do útero não é hereditária. Este cancro é sempre causado por um vírus, o Papilomavírus, capaz de transformar as células do colo do útero, provocando lesões, que podem progredir para lesões cancerosas.
COMO SE TRANSMITE
O Vírus do Papiloma Humano infecta mulheres e homens. Qualquer pessoa que tenha tido alguma forma de contacto genital com um portador pode estar infectado. Significa que não é necessário ter relações sexuais para haver infecção.
VACINAÇÃO
Uma vez que a infecção é mais frequente no início da vida sexual, a vacinação deverá ser feita, desejavelmente, de preferência em pré-adolescentes e adolescentes.
"ESPERO QUE VALHA A PENA" (Natália Ferreira, 21 anos, estudante de Medicina)
Correio da Manhã - Por que recorreu à vacinação ?
Natália Ferreira - Decidi-me depois da informação que chegou pelos meios de comunicação sobre a vacina e posteriormente falei com o ginecologista para saber se valeria a pena.
- E o que lhe foi dito?
- Que, apesar de ter passado a faixa etária que dizem ser mais correcta, valeria a pena. Foi-me dito que a probabilidade de ser eficaz é grande.
- A vacina é cara?
- É um valor ainda bastante elevado, mais de 150 euros por toma. Tive a sorte de os meus pais poderem pagar.
"PENSA-SE QUE ACABOU TUDO" (Teresa Lopes)
As dores nas costas eram penosas. Cresceram sem parar, mas jamais lhe passou pela cabeça que pudesse ser algo de muito grave. A justificação acabava sempre por ser o acidente de viação que meses antes a levara à mesa da cirurgia.
Aos 39 anos, e depois de finalmente ter feito um exame ginecológico, a telefonista Teresa Lopes recebeu a pior das notícias: tinha cancro no colo do útero. O cenário não era encorajador, principalmente pelo menino que corria pelos corredores lá de casa e temia não ver crescer. O filho tinha apenas cinco anos.
"Já me estava a começar a afectar a função renal, pois apesar dos indícios nunca os valorizei como devia. Durante esse tempo perdi muita qualidade de vida", recorda Teresa.
No início a sensação é a de ter "o Mundo a desabar", mas para Teresa foi uma prova de fogo, que agora se orgulha de ter superado. A família e a equipa de médicos que encontrou no Instituto Português de Oncologia foram essenciais na recuperação, que ainda hoje perdura. "Acho que o meu marido estava ainda mais preocupado. Queria muito que sobrevivesse", diz.
A telefonista não se considera modelo para ninguém. "Não fazia regularmente o rastreio, como devia. Quando fiz o primeiro foi logo detectado o cancro", explica. "Nessa altura, pensa-se que acabou tudo. Ainda por cima temia não ver o meu filho crescer", acrescenta.
O seu cancro, pelo estádio de desenvolvimento, já não era operável. A solução passou pela radioterapia e quimioterapia. Uma fase complicada, mas ultrapassada. "Temos de aprender a viver com aquilo que o nosso corpo nos permite fazer", afirma.
Mas esse não é o paradigma, dos casos que conhece. "Há muitas pessoas que vêem as relações completamente destroçadas", confidencia Teresa Lopes.
PERFIL
Teresa Lopes tem 44 anos e é telefonista. Em 2003, a sua vida alterou-se por completo. Já há três anos que não fazia o exame ginecológico de rotina e nunca pensou que as dores que a atormentavam pudessem esconder o cancro em estado avançado.
NOTAS
PRÉMIO NOBEL
O professor Harald Zur Hausen ganhou o prémio Nobel ao descobrir que o Papilomavírus está na origem deste tipo de cancro.
PREÇO DA VACINA
Cada toma da vacina custa 160,45 euros. No total, para as três doses necessárias, são precisos 481,35 euros.
COLPOSCÓPIO
É com o colposcópio que é feito na consulta ginecológica o exame de confirmação ao Papanicolaou.
Fonte: João Carlos Malta (Correio da Manhã)